14 de junho de 2011





Às vezes é preciso mergulhar bem fundo para depois subir e respirar. Uns afogam-se e não voltam, outros, com o tempo e prática, fortalecem os pulmões. 


 quando eu olhava naqueles olhos verdes, dava-me uma vontade de mergulhar fundo, bem fundo no mar de tristeza daquela alma e salvar seu coraçãozinho. fazê-lo parar de sofrer, roubá-lo para mim. no entanto, e ironicamente, isso não faria de mim a heroína, mas sim a vilã.

 o coração dele já tinha sido entregue a outro alguém.
o problema é que eu tinha entregue o meu e agora não sabia como o reaver.

 e não ajudava nada vê-lo morder aquela palheta da minha caipirinha, da qual lhe ofereci um gole e ele se apoderou enquanto pensava em todos os seus pequenos problemas. deu-me vontade de dizer-lhe para ignorar, esquecer tudo o resto e vir comigo, mas eu não fiz nada. apenas me sentei naquela mesa, ignorei o som estridente que saia daquelas colunas e fiquei a olhar para ele. tentei decifrar os seus pensamentos.

 isto do destino ...

horas antes decidi-me a deixar o coração em casa, passar uma boa noite sem qualquer sufoco ou ilusão.
apenas uma noite bem passada.

 mas, parece que ele estava decidido a arruinar tudo isso.

 não bastava que tudo tivesse mudado? não bastavam as ilusões e as desilusões?

 não, é claro que não bastava. parece que foi necessário mais um destes encontros imediatos para que eu me pudesse certificar de que o rosto dele estava de mudanças definitivas para os meus sonhos.

 parece que ele precisava de chegar com aquela camisa branca que eu adoro e encostar-se à porta de minha casa dizendo que não sabia mais o que fazer, que amava mas não aguentava sofrer.

parece que ele precisava de me perguntar o que é que ele estava a fazer de errado. só para me ouvir dizer que o problema não era ele. descarga de consciência? parece que era disso que ele precisava.


inevitavelmente, doeu-me ver que ele estava mal, mas doeu-me mais ainda saber que continuaria doendo em mim mesmo depois de ele virar costas.


 confesso, quando dei por isso, já o tinha convidado para ir connosco.
elas odiaram-no. odiaram-no porque amigas que são amigas, acabam sempre por odiar os rapazes que nos fazem sofrer. é regra.  

 numa tentativa de afastar aquela tensão gélida entre todos, decidi começar uma conversa pouco mais animada. ele sorriu. era bom saber que eu ainda o fazia sorrir, mesmo que o seu olhar quase implorasse para que as lágrimas descessem.

era algo mutuo.

 imaginei uma noite fantástica, amigas, festa. no entanto, aquilo que era para ser uma noite de loucura, acabou por se tornar num leve tango.

 tentei espairecer ainda assim, mas olhar para o lado e vê-lo parado de cerveja na mão, desnorteado como quem procura algo que o conforte, simplesmente partiu-me o coração (vindo dele, isso tinha-se já tornado quase um hábito)
fui até lá e fiquei por perto.

 quando vi, já eu estava ao seu lado. tentei animá-lo e de quando em vez lá o fazia soltar um sorriso um tanto ou quanto envergonhado. 

 enquanto isso, eu ia ficando tonta. não sei se pelo perfume dele ou se pelas luzes psicadélicas vermelhas, violetas, verdes... 
segundos depois ele disse o meu nome. pediu-me que me sentasse naquela mesa, e sem saber bem porquê, aceitei, quase sem hesitar.
 tomou o ultimo gole, levantou-se e sentou-se ao meu lado. o rosto dele ficará tenso. 

- Acabou. - disse, naquele tom de decisão que quase dói. 
assustei-me. a minha alma escorregou. a minha cara ficou imóvel, mantendo uma séria expressão que tentava disfarçar a incompreensão que senti naquele momento.
entretanto o meu corpo foi invadido por uma esperança meio-vaga, meio-torta, mas que ainda assim persistia. uma espécie de alegria estranha de quem vê a luz ao fundo do túnel. 

- Tens a certeza? - eu quis confirmar e precisei de controlar o sorriso.
- Não... Claro que não. - aí não precisei controlar mais aquele sorriso. ele próprio tinha desvanecido. 

 olhei-o nos olhos. olhei-o e vi amor. e doeu. toda a minha esperança havia dissolvido dentro do meu sangue e só me restava ser a amiga que ele precisava.

 engoli o choro ainda na garganta e fiz o que fazem os bons amigos. 

- Então não acabes com tudo! Tudo se vai resolver, tudo vai ficar bem.- e eu vi um sorriso nos seus lábios. tentei imitá-lo. 
- Obrigado. Mesmo. - disse-me enquanto se levantava da cadeira num tremor estranho e me olhava. abraçou-me. vi-o mergulhar na multidão e, numa questão de segundos, desapareceu.

 Entretanto eu mergulhei bem fundo, mas esqueci-me de como se fazia para voltar.


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